Mostrar mensagens com a etiqueta Artigos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Artigos. Mostrar todas as mensagens

4.6.24

MAS O QUE PODEMOS APRENDER ATRAVÉS DOS LIVROS?


Das inúmeras viagens à Índia aproveito sempre para trazer livros de Yoga de autores de referência e também escrituras ou Yoga śastras, quer pela qualidade e acesso dos livros como pelo preço.

Compro-os por várias razões. Por algo que me despertou curiosidade e interesse ao ver o livro ou porque os/as yogis/yoginis que visito falaram de algum tema específico ou mencionaram esses mesmos livros.

Apesar de tudo, nada é mais inspirador do que aprender diretamente com alguém, yogi/yogini e um exemplo vivo, que realizou na sua vida aquilo que almejamos ou buscamos.

Não se aprende Yoga apenas lendo livros. É preciso, reflectir e digerir aquilo que se lê e ouve antes de integrar. Para isso além da prática e dedicação pessoal a orientação de um professor/tutor/mentor genuíno é essencial.

Enquanto professor, tudo aquilo que aprendo passa por um processo de integração antes de poder ensinar.

Isso é válido para o Yoga mas também para tudo na vida. Não há razão para termos dúvidas acerca disso pois sempre tivemos quem nos ensinasse (entenda-se 'orientasse'). Desde o nascimento as primeiras pessoas ou professores que tivemos foram a nossa mãe e o nosso pai.

Poucos são aqueles que persistem e dedicam-se o suficiente de forma a conseguirem sozinhos. Mas como diz o Swami Shivananda, enquanto o professor não aparece, pratica, investiga e vai em frente! Não fiques à espera do momento certo que não sabes quando vai chegar!

Om Śri Gurubhyo namah!

31.3.21

Entrevista sobre Yoga e Yoga Terapia com Gonçalo Correia e Marco Peralta


As perguntas que se seguem foram colocadas pela Yoga Alliance Profissionals e respondidas por nós. Esperamos que tanto as perguntas como as respostas possam ser úteis não só em remover dúvidas que possas ter acerca deste tópico, mas também para clarificar e suscitar a reflexão sobre o que é Yoga Terapia.

1 – Qual é a vossa visão de Yoga Terapia?

Yoga Terapia é uma contribuição fundamental do yoga para a vida moderna, baseada em princípios antigos, oferecendo soluções naturais e usando o que já tens dentro de ti (o teu corpo e a tua mente) para te curares e te veres como inteiro e completo/a independentemente das tuas circunstâncias, desta maneira contribuindo de forma muito real para um ser humano mais saudável.

Todas as técnicas de yoga que são usadas para autorrealização têm também efeitos terapêuticos no alívio e cura de doenças. Nas escrituras de yoga e no caminho do yoga, a saúde é considerada algo muito importante. A maioria destes benefícios estão nos dias de hoje a ser provados por meios científicos, demonstrando os efeitos terapêuticos e curativos destas técnicas e pontos filosóficos antigos – algo que nós, yogis, já sabemos por experiência direta.

Sempre relembrando de que no Yoga não há divisão entre a mente e o corpo, prática e filosofia – ambos estão ligados e, de certa maneira, ambos são um.

Nas escrituras, a doença é considerada simplesmente como uma causa da sensação de limitação e como um obstáculo ao objetivo do yoga. Várias escrituras antigas do yoga, como os Yoga Sutras, Yoga Vashistha, Hatha Yoga Pradipika e alguns Yoga Upanishads, entre outros textos, referem e descrevem este efeito terapêutico das técnicas de Yoga.

Temos aqui alguns exemplos:

Hatha Yoga Pradipika

Paschimottanasana é o melhor entre os asanas. Através deste asana as correntes prânicas sobem através de sushuma, o fogo digestivo aumenta, o abdómen torna-se plano, e o praticante torna-se livre de doenças. HYP 1:29

Isto chama-se padmasana, destruidor de todas as doenças. Pessoas normais não conseguem atingir esta postura, somente os poucos sábios nesta terra o conseguem. HYP 1:47

Seja novo ou velho, doente ou fraco, consegue-se atingir perfeição em todos os yogas através da prática. HYP 1:64

Yoga Sutra de Patañjali

 “Estes obstáculos são doença, inércia, dúvida, descuido, preguiça, indisciplina dos sentidos, visões errôneas, falta de perseverança, e retrocesso. YS 1.30

“Tristeza, desespero, instabilidade do corpo e respiração irregular distraem mais a consciência.” YS I.31

“As dores que ainda estão para vir podem e devem ser evitadas” YS 2:16

“Aplicando samyama no círculo do umbigo, adquire-se o conhecimento da constituição e funcionamento do próprio corpo.” YS 3.30

Yoga Vasistha

Diálogo entre Rama e Vasistha sobre a Doença (Vyadhi e Adhi) e suas Causas

(excerto retirado da 6ª secção (nirvana prakaranam) do Yoga Vasistha)

Rama perguntou: 

O que são as doenças (vyadhi), e o que são os distúrbios psíquicos (adhi)  e as condições degenerativas do corpo? Peço-lhe por favor, que me esclareça sobre estes assuntos.  

Vasistha continuou: 

Adhi e vyadhi são fontes de sofrimento. A sua prevenção  é a felicidade, a sua interrupção é a libertação. Por vezes elas surgem juntas, às vezes originam uma à outra, e outras vezes ainda elas se sucedem. A doença física é conhecida por vyadhi, e o distúrbio psíquico causado pelo condicionamento psicológico (neurose) é conhecido por adhi. Ambas estão enraizadas na ignorância e na maldade. Elas cessam quando o auto-conhecimento ou o conhecimento da verdade é obtido. 

A ignorância dá lugar à ausência de auto-controlo, e assim é-se constantemente invadido por ‘gosto’ e ‘não gosto’, e por pensamentos tais como ‘eu conquistei isto, eu ainda tenho que conquistar aquilo’. Tudo isto intensifica a ilusão e conduz aos distúrbios psíquicos.   

As doenças físicas são causadas pela ignorância, e simultaneamente, pela ausência total de restrição mental, o que leva a hábitos alimentares e de vida impróprios. Outras causas incluem actividades inoportunas e irregulares, hábitos pouco saudáveis, más companhias e pensamentos perversos. Elas também são causadas pelo enfraquecimento, agitação ou obstrução das nadis, impedindo assim o fluxo livre da força vital (prana). Por último, elas são causadas por um ambiente pouco saudável. Todos elas são, evidentemente, determinadas pelos frutos das acções passadas, realizadas num passado próximo ou distante. 

Vasistha continuou: 

Todos estes distúrbios psíquicos e doenças físicas surgem a partir dos quíntuplos elementos. Vou agora dizer-te como é que elas deixam de existir. As doenças físicas são de dois tipos: comuns e sérias. A primeira surge devido a causas do quotidiano, enquanto que a segunda é congénita. A primeira é corrigida através de meios terapêutivos/medicinais, adoptando também uma atitude mental adequada. Mas o segundo tipo de doença (sérias), assim como os distúrbios psíquicos, não terminam até que o auto-conhecimento seja obtido. A cobra que é vista na corda apenas morre quando a corda é novamente vista como corda. O autoconhecimento leva ao fim de todos os distúrbios físicos e psíquicos. Contudo, as doenças físicas que não são psicossomáticas podem ser tratadas com o auxílio de medicação, orações, e pela acção correcta, como também por banhos. Todos estes  têm sido descritos nos tratados médicos.  

Rama perguntou: 

Peço-lhe por favor, diga-me como é que a doença física surge dos distúrbios psíquicos, e como é que pode ser tratada por outros meios que não recorrendo à medicina.    

Vasistha continuou: 

Quando há confusão mental, o nosso caminho não é compreendido com clareza. Incapaz de ver o caminho à sua frente, o caminho errado é seguido. Assim, e devido a esta confusão, as forças vitais são agitadas fluindo ao acaso ao longo das nadis. Como resultado disso o prana é esgotado em algumas nadis enquanto que noutras encontra-se bloqueado.  

Depois seguem-se os distúrbios no metabolismo, indigestão, apetite excessivo, bem como funcionamento impróprio do sistema digestivo em geral. O alimento ingerido transforma-se em veneno. O movimento natural dos alimentos dentro e através do corpo é detido. Isto dá origem a várias doenças físicas.  

É assim que os distúrbios psíquicos levam a doenças físicas. Assim como myrobalan é capaz de movimentar os intestinos, certos mantras como ya, ra, la, va, também podem curar esses distúrbios psicossomáticos. Outras medidas a adoptar são acções auspiciosas e de natureza pura, o serviço a homens santos, etc. Através destes, a mente torna-se pura, e uma grande alegria brota no nosso coração. O fluxo das forças vitais ao longo das nadis passa a fluir como deveria (ou seja, correctamente). A digestão torna-se normal e as doenças cessam.    

2 – Como definiriam Yoga Terapia?

Yoga Terapia é a terapia que usa as técnicas, filosofia, fisiologia e psicologia do yoga para aliviar, tratar e curar doenças, mantendo sempre a consciência do objetivo e propósito do Yoga.

3 – Já experienciaram pessoalmente alguma forma de Yoga Terapia, e qual foi o resultado?

Sim, as maiores aplicações de yoga terapia que fizemos foram em nós próprios, E de certa forma este é o processo do yoga; usar as técnicas, filosofia, fisiologia e psicologia do yoga em nós próprios para remover obstáculos (visões erradas, crenças, doenças) que se possam ter à realização do yoga.

E também com o nosso ensino e experiência prática ao longo de muitos anos, com alunos com diferentes condições e questões de saúde física e mental (escoliose, reumatismo, psicose, esquizofrenia, depressão, infeções urinárias, osteoporose, vários tipos de cancro, etc.) com resultados excelentes.

(Marco) No meu caso eu tive experiência pessoal a usar yoga para lidar com trauma de perda trágica e repentina de família e amigos (melhor amigo aos 15 anos, e a minha irmã aos 40),  acidentes (cai de um telhado), e outras situações mais comuns de doença.

(Gonçalo) No meu caso, tive experiência pessoal a usar yoga para lidar com: dores de cabeça crónicas, raiva, infecções urinárias e falta de motivação para viver. A meditação fez-me experienciar muitos benefícios nos primeiros anos de prática, mas depois disso também despoletou depressão e falta de motivação para viver, e isto fez-me querer explorar de forma mais profunda as mesmas técnicas que me trouxeram tantos benefícios mas também despoletaram prejuízos.

4 – Alguns professores diriam que yoga é terapia e que não há necessidade de lhe chamar Yoga Terapia. O que é que acham?

O Yoga tem a sua própria perspectiva e abordagem ao lidar com doença (física, mental e emocional), mas yoga não é o mesmo que terapia.

Este é só um aspeto e um passo no Yoga (arambha avastha). Como dissemos antes, o objetivo do Yoga é auto realização.

Muitos alunos vêm praticar yoga e é muito comum que tenham questões de saúde para lidar. Utilizando Yoga Terapia, pode lidar-se com estas questões e o avanço dos problemas de saúde pode ser evitado (heyam dukham anagatam). Eles devem-se informar acerca da abordagem terapêutica do yoga, porque Yoga Terapia é necessária não só para tratar, mas sobretudo para prevenir problemas de saúde.

Cada pessoa é única. Alguns alunos deparam-se com desafios mentais, outros físicos, outros emocionais, especialmente se vêm para o yoga. Professores devem saber o que fazer e o que não fazer, e tomá-lo em consideração sabendo como ensinar, guiar e adaptar a prática, orientando os alunos de forma personalizada.

O aluno deve sentir melhorias nos problemas de saúde, ganhar autoconfiança na sua prática e caminho, e especialmente aperceber-se da totalidade de si mesmo na sua vida diária.

O aluno não é uma pessoa doente; ele tem uma doença com a qual se deve lidar.

5 – Estão preocupados que alguns terapeutas possam estar a fazer alegações exageradas acerca da efetividade do que oferecem com Yoga Terapia? 

Comparando com o que chegou a nós nas escrituras, estão a ser modestos.

Mas é muito importante que o professor seja sério e não promessa resultados que não pode oferecer. Ao mesmo tempo, o potencial que Yoga Terapia tem é tão grande que de certa forma não pode ser posto em palavras.

Yoga Terapia também pode ser complementar a outro tratamento alopático ou natural.

Devemos também enfatizar que na yoga terapia a responsabilidade está principalmente na aplicação prática das técnicas e filosofia na realidade da vida do paciente, e não só naquilo que ele faz quando vem à sessão de yoga terapia.

O Yoga desencadeia em nós potencial curativo, conectando-nos com os mesmos princípios universais criativos que sustêm toda a realidade manifestada. Nós ainda não encontrámos um limite para os benefícios e aplicações de Yoga terapia.

22.8.14

.

Srí BKS Iyengar
um dos grandes yogis dos nossos tempos, 
partiu para o Absoluto a 20 de Agosto de 2014, com 95 anos.
Influenciou e continuará a influenciar o modo como praticamos.
O seu método e abordagem tornou a prática de Yoga acessível a qualquer pessoa.
Aqui fica a nossa lembrança e tributo
Om Shanti, Shanti, Shantih
Harih Om

4.10.13

Yoga Vasistha

Diálogo entre Brahmarishi Vasistha e o Príncipe Rama sobre a Doença (Vyadhi e Adhi) e suas Causas
Por Gonçalo Correia
O Yoga Vasistha
Muitos associam o nome Vasistha a um ásana com o mesmo nome: o Vasisthásana (ardha-vasisthásana na foto em baixo). Porém, talvez desconheçam que esta postura é dedicada em homenagem ao sábio, guru do príncipe de Rama e de seus irmãos. É com a intenção de dar a conhecer um pouco mais sobre Vasistha e os seus ensinamentos que escrevo este texto.
A história do encontro entre Vasistha e Rama pode ser conhecida no Yoga Vasistha, também conhecido por Jnana Vasistham,um tratado onde podemos ‘beber’ dos seus ensinamentos. 
O livro encontra-se dividido em seis secções: vairagya prakaranam (sobre o desapego), mumukshu prakaranam (sobre o comportamento do buscador), utpatti prakaranam (sobre a criação), sthiti prakaranam (sobre a existência), upasanti prakaranam (sobre a dissolução ou quietude) e nirvana prakaranam (sobre a libertação definitiva).
...Na cidade de Ayodhya, no norte da Índia,  podemos visitar um bonito templo, o Vasistha Mandir, que representa o gurukula onde os príncipes viveram, estudaram e aprenderam com este grande mestre.
As instruções transmitidas são muito úteis não só para o estudante de Vedanta como também para o hatha yogi.

Leia o texto completo clicando aqui > > >

Anatomia e Fisiologia:

Reflexão sobre a Relevância do seu Estudo no Contexto da Prática de Yoga

Gonçalo Correia
Ao reflectirmos sobre a relevância e importância do estudo da anatomia e fisiologia do ser humano no contexto do Yoga sádhana, é interessante começar por enumerar algumas das suas vantagens mais evidentes. Elas são:
1.      Prevenir e tratar lesões;
2.      Detectar precocemente ‘vícios’ que poderiam levar a uma prática incorrecta;
3.      Utilizar uma linguagem clara e ao mesmo tempo simples, durante a descrição das técnicas de yoga;
4.      Ganhar familiaridade com os termos técnicos básicos dos livros de anatomia e fisiologia, para facilitar o estudo e consulta dos mesmos.
Por vezes o praticante de yoga em busca de um entendimento mais profundo (por exemplo, sobre como respirar correctamente no pranayama, sobre se se deve meditar de olhos abertos ou fechados, etc) procura em diferentes escolas esclarecimento. Essa  busca é positiva se o levar a  identificar aqueles aspectos essenciais e comuns a todas essas metodologias ou escolas. Chamar-lhe-emos de aspectos universais pois ao identificá-los realizamos o poder das técnicas. Neste contexto, estudar anatomia e fisiologia segundo uma perspectiva yoguica, aliado a um sentido prático da vida, é com certeza um bom contributo.

Leia o texto completo clicando aqui > > >

27.3.13

Uma perspectiva pessoal sobre a Tradição do Yoga

Entrevista de António Matos, entrevistado Gonçalo Correia

As perguntas que se seguem foram colocadas pelo colega António Matos, no âmbito de um trabalho para a cadeira de Introdução às Religiões da Ásia, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. As questões seleccionadas incidem sobre o Hatha Yoga em particular, sua origem e objectivo final, relação com outros tipos de Yoga como Raja e Jñana, a Tradição num contexto contemporâneo, etc. Tentei responder de forma clara e segundo a minha própria vivência. Espero que as respostas vos possam ser úteis e sejam esclarecedoras de algumas questões que possam ter. 
 
Antes de continuar, gostaria de deixar claro que para mim o Yoga é só um. Muitos métodos de Yoga praticados actualmente no Ocidente, que não estão associados directamente ao Hatha Yoga foram beber ao Hatha Yoga, aprendendo asana, pranayama, shatkarma, mudra, etc, com professores Indianos ou Ocidentais e mais tarde criando os seus próprios métodos. Citando o Ashtavakra Gita, “observando que existe opiniões tão diversas entre grandes videntes, santos e yogis, quem é que não alcança a tranquilidade ao tornar-se completamente indiferente?”

Você está formalmente ligado a alguma sampradaya tradicional com raízes na Índia, e a alguma instituição yogica no ocidente?
Num determinado Satsang no Yoga Hall do Shivananda Ashram, com vista para o rio Ganges, um indiano pediu ao Swami Muktananda ji para ser iniciado como seu discípulo. O swami ji respondeu-lhe que se ele praticasse os seus ensinamentos, se dedicasse um momento do dia para a interioridade, para a meditação então tornar-se-ia seu discípulo. Não seria, portanto, necessário formalizar a iniciação. 
Sei que existem gurus genuínos que não iniciaram formalmente nenhum discípulo.
Estou ligado a alguns yogis, que com o seu olhar, ensinamentos e presença me inspiraram. Não estou ligado a nenhuma instituição yogica no Ocidente.   



25.10.12

Mantras para a Prática


A pedido dos nossos alunos, partilhamos aqui os mantras que vocalizamos com mais regularidade durante as aulas. 
Estes mantras preparam-nos para a prática: indicam a atitude prévia apropriada, o fundamento da prática e do empenho pelo auto-conhecimento.   
Boa prática!

Mantras Invocatórios

Mantra (Início da aula): shánti mantra

Om sahanavavatu
Sahanaubhunaktu
Sahavíryam karva vahai
Tejasvinavadhitamastu
Ma vidvishavahai
Om shánti shánti shántihi

Que todos estejamos protegidos e unidos.
Que estejamos nutridos e unidos.
Que trabalhemos juntos, unindo forças pelo bem comum.
Que nosso saber seja luminoso.
Que nunca briguemos.
Om. Que haja paz, paz, paz.
Taittiríya Upanishad



Mantra (Final da aula): shánti path

Om purnam adah purnam idam
Purnát purna mudachyate
Purnasya purnam ádáya purnam evávashishyate
Om shánti shánti shántihi

Om. Isto é plenitude. Aquilo é plenitude.
Da plenitude, a plenitude surge.
Tirando a plenitude da plenitude,
Somente a plenitude resta.
Om paz, paz, paz.
Íshá Upanishad

5.3.12

INTRODUÇÃO AO RAMAYANA

HISTÓRIA
No Reino todos se preparavam para a coroação de Sri Rama como Príncipe Regente de Ayodhya. Mas ao contrário do que seria natural, o escolhido foi Bharatta, filho de Kaikeyi, a esposa mais jovem do Rei Dasharatha e madrasta de Rama. O Rei foi levado a tomar esta decisão porque a Rainha Kaikeyi o lembrou de uma promessa antiga, do tempo em que os príncipes ainda eram crianças. Os protestos surgiram, inclusive do próprio Bharatta que lançou duras críticas à atitude de sua mãe. Ele tinha pelo irmão grande estima e admiração. Todos no reino tinham.

Perante esta situação e para preservar a palavra de seu pai, que apesar de tudo era reconhecido como um rei justo e bondoso, Rama partiu para o exílio na companhia de Sitadevi sua esposa, e do inseparável irmão, Lakshmana.
E assim passaram a viver na floresta de Dandaka, um local de difícil acesso, mas onde apesar da simplicidade, viviam felizes, tranquilos e na mais perfeita harmonia.

Acontece que de tempo em tempo era frequente alguns demónios (rakshasas), perturbarem não só ambiente nas florestas como a própria população que lá vivia. Eles usavam de tudo, desde a sua figura repugnante para assustar as pessoas, poderes mágicos para manipular a mente, levá-las à loucura e à morte, etc. Ora, quando Rama tomou conhecimento disso, passou a protegê-las bem como aos animais da floresta. 

Nessa altura reinava no Sri Lanka o líder dos demónios, o terrível e ardiloso Ravana. Ele era poderoso quer em força física quer em poderes mentais. O seu reinado era tudo menos justo e pacífico. Por essa razão, como veremos, ele tornou-se o principal adversário de Rama. Incomodado pela invulnerabilidade e poder de Rama, o próprio Ravana em pessoa decidiu ir à floresta disfarçado de sacerdote (brahmana). Mas quando viu Sita sentiu desejo em possuí-la, torná-la sua esposa e por isso raptou-a à força, levando-a consigo para Lanka. Rama e Lakshmana aperceberam-se do embuste, mas já tarde. Entretanto contam com a ajuda do Rei dos macacos Sugriva e seu ministro Hanuman, organizando um exército para resgatar Sita.
E isto é apenas o início...

9.4.11

Ciclo de Estudo e Prática

Introdução aos Bandhas
Os bandhas implicam a contracção de certos músculos, plexos e glândulas específicos do corpo, produzindo enormes benefícios fisiológicos. Funcionam como “fechaduras” que vão actuar sobre a energia vital (prána): acumulando, dirigindo e expandindo. Os bandhas que vamos aprender são o jálandhara, uddíyana e o múla bandha.

Praticam-se durante os ásanas, pránáyámas assim como em técnicas de preparação para a meditação. Além do aspecto físico surgem mudanças positivas a nível energético, mental (manas) e intelectual (buddhi). São essenciais e fazem parte das práticas de hatha, kriya e kundaliní yoga.

                                         Jálandhara Bandha
O jálandhara bandha consiste em aproximar o queixo do espaço entre as clavículas e depois contrair ligeiramente nessa direcção. Tem particular atenção no alongamento do pescoço tanto posterior como lateral e não cries tensão na musculatura ao executar este bandha. Desse modo repara que ajudas o peito a elevar-se em direcção ao queixo e a expandi-lo confortávelmente. O queixo aproxima-se do peito da mesma forma que a abelha pousa na flor para colher o pólen. A face permanece descontraída.

Embora o jálandhara bandha possa ser executado durante todas as 4 fases da respiração, ele é obrigatório apenas nas retenções prolongadas (kúmbhaka) da respiração. A razão é porque quando retemos o ar, o coração tem tendência a acelerar e a pressão arterial a aumentar. Com a continuação podem surgir sinais de arritmia e palpitações. Ora a boa notícia é que este bandha ao pressionar os nervos carotidianos evita não só que seja exercida pressão acima da glote (no cérebro, orgãos dos sentidos, etc) mas também provoca um afrouxamento dos batimentos cardíacos.

O efeito mais imediato é o aquietamento dos sentidos e da actividade mental.
 
Prána (Energia Vital)
O peito é o “receptáculo” onde se manifesta o próprio Prána neste corpo. Conhecido também como “ar” vital (váyu), é ele que fornece energia a todos os outros. Regula as funções fisiológicas da respiração e circulação. Além do peito, o prána também está presente na cabeça, como aliás confirma o Prashnopanishad III.5 “(...) o prána ocupando o lugar do soberano reside nos olhos e ouvidos, imitindo-se também pela boca e narinas (...)”.

Com o auxílio do jálandhara bandha o prána é dirigido para o umbigo ou manipura kshetra.

Aperfeiçoa o jálandhara bandha com o sarvangásana e o halásana.

                                Halásana                                 Sarvangásana

- Excerto retirado dos apontamentos da 2ª sessão do Ciclo de Estudo e Prática, "A Prática de Yoga na Rotina Diária", Gonçalo Correia

20.12.10

O Yoga é só um. As diferenças surgem quando a mente surge.



 

Templo de Tukaram, 
Sul da Índia
Foto: Lídia Marques






Um dos propósitos do Yoga sempre foi conhecer de que "matéria" somos feitos.

Por vezes métodos de Yoga ditos "mais físicos", que incidam sobre os ásanas e pránáyámas, são considerados formas inferiores de Yoga quando comparados com aqueles que se centram na meditação. 
Ora, os yogis desde os tempos mais remotos observaram que o ásana e o pránáyáma são técnicas que comunicam com a periferia de si mesmo - o corpo e a respiração. Além disso, verificaram que a actividade mental e o prána (energia vital) são coincidentes e que as referidas técnicas para além de equilibrar o fluxo de energia no organismo, também produziam clareza e estabilidade mental e emocional.
Quando o corpo é saudável, a respiração é profunda e o pensamento é claro, tornamo-nos no mínimo mais disponíveis para a vida. Sentimo-nos com mais energia e confiantes para gerir da melhor forma os desafios diários. Somos outra consciência.
Foram assim dados os primeiros passos para mergulharmos espontaneamente na meditação e conhecermos definitivamente quem somos. 
Gonçalo Correia e Lídia Marques

14.9.10

Início do Ano Lectivo 2010/2011

Início do Ano Lectivo

O Despertar da Vontade
rio Côa, aldeia Senouras
Foto: Gonçalo Correia

Quando iniciámos a nossa prática de Yoga e começámos a ler sobre o tema, alguns conceitos como mantras, bandhas, prána, kundaliní e samádhi entre outros "nomes estranhos" passaram, quase sem darmos conta disso, a estar incluídos no nosso vocabulário.

Apesar da nossa dedicação não conseguíamos conciliar a prática com a teoria, ou seja, não sentíamos "essa" teoria na prática. Sem dúvida sentíamos benefícios aula após aula. No entanto, a "dita" teoria continuava a parecer um pouco abstracta e difícil de integrar nas necessidades da vida diária. Ficava a sensação de que havia algo que nos estava a escapar.

A verdadeira mudança e consciencialização ocorreu mais tarde, quando decidimos fazer a nossa primeira viagem de estudos à Índia. Podia ter sido noutro sítio qualquer, é verdade. O facto é que foi em Rishikesh que despertámos para a prática de Yoga de uma forma nova.

O que antes líamos nos livros, passámos a sentir em nós.

Mas não aconteceu logo no início, nem foi fácil. Foi necessário ter paciência, disciplina, dedicação e entrega, até que estivéssemos realmente preparados para receber essas mudanças.

Ao adquirir maior clareza na forma de praticar, entendemos que por vezes é difícil agir segundo aquilo que é o melhor para nós porque falta, no mínimo, alguma compreensão sobre si mesmo. Foi aí que nos debruçámos mais sobre aquilo que sempre foi o tema central dos Textos Antigos do Yoga: a natureza da vida, sua essência e a causa da nossa "eterna" insatisfação que nos distrai dos verdadeiros desafios e impede de sermos felizes e de vivermos pacificamente. Assim o Yoga não é "mais uma coisa" que acrescentamos à nossa já acelerada e ocupada rotina diária. É algo, sim, que nos torna mais atentos, presentes, preparados para aceitar os desafios e acordar da ilusão de que existem obstáculos a ultrapassar. Se estivermos disponíveis veremos que cada instante é uma oportunidade para conhecer definitivamente quem somos e acordar para aquilo que é realmente importante na Vida.

Nesse sentido, o Yoga propõe técnicas, auto-observação, e não menos importante, uma forma de estar e de ser muito própria que ajuda a concretizar esse objectivo.

Não há dúvidas de que todos podemos ter sucesso, e que em algum momento ao cruzarmo-nos na caminhada ela se torna mais curta, fácil e descontraída.

Com Carinho,

Lídia Marques e Gonçalo Correia

Yoga Kshetra, Set 2010

19.7.10

Estes três textos são da autoria do Tiago Oliveira, aluno no Yoga Kshetra, e surgiram no contexto de conversas e encontros entre as aulas. Pela pertinência dos assuntos e simplicidade na forma como foram expostos decidimos partilhá-los. Desfrutem!


Ia Eu Cheio de Certezas e Ego em Riste
26.12.2009

Estive a ler e a ouvir no vosso blogue sobre yoguis, gurus e sadhus e senti vontade de escrever as seguintes linhas.

Num dos primeiros retiros que fiz, aquando de uma conversa que tive com a sensei (ia eu cheio de certezas e ego em riste) pus-me a falar sobre
um sutra que tinha ouvido uma vez e que tinha ficado a zumbir na minha cabeça. Queria que ela me dissesse que o que eu estava a pensar era o correcto, que estava no bom caminho, que tinha atingido algo… A resposta dela foi muito simples e deitou tudo o que eu "era" por terra: "Porque praticas?"

Foi a melhor resposta que ela me poderia ter dado. Não lhe consegui dizer logo a razão da minha prática, era algo tão natural para mim como respirar. O que é certo é que essa pergunta me fez questionar todas as minhas práticas diárias, pessoais, profissionais… foi um check-up total!
Ao ler as linhas sobre a importância de um propósito de prática do yoga – e quem diz yoga, diz vida – lembrei-me dessa conversa e voltei a fazer-me a mesma pergunta, como aliás andam vocês a dizer há que tempos mas que só agora me "entrou".


Quando me decidi a praticar yoga era apenas uma maneira de me mexer! Ir para o ginásio e fazer aquelas coisas todas não me motiva. E sempre foi algo que me atraiu inconscientemente antes de sequer ouvir falar em meditação ou zen ou outra coisa qualquer. A prática do yoga é agora para mim o mesmo que respirar com consciência. No entanto, e como tão bem apontaram na última quarta, o bom discípulo/aluno é o discípulo atento; eu não tenho estado atento, nem focado num propósito. Tenho estado apenas consciente de que respiro sem dar atenção ao contacto do ar no meu corpo.


Agora estou atento ao facto de que não costumo estar atento; já é um princípio.

Uma Chávena de Chá

08.02.2010

Gonçalo, enquanto falavas hoje, depois da aula, lembrei-me deste pequeno conto zen. Bom proveito.

«Uma chávena de chá

Nan-In, um mestre japonês durante a era Meiji (1868-1912), recebeu um professor de universidade que veio inquiri-lo sobre o Zen. Este iniciou um longo discurso intelectual sobre suas dúvidas, questões e interrogações.

Nan-In, enquanto isso, serviu o chá. Encheu completamente a chávena do seu visitante, e continuou a enchê-la, derramando o chá pela borda.

O professor, vendo o excesso a derramar-se, não conseguiu conter-se e disse:
"Está muito cheio. Não cabe mais chá!"

"Como esta chávena," Nan-in disse, "você está cheio das suas próprias opiniões e especulações. Como posso eu demonstrar-lhe o Zen se você não esvaziar primeiro a sua chávena?"»


Precisamos do Conhecimento Para Depois Percebermos

Que Afinal Não Precisamos Dele

07.07.2010

Om do livro "Advaita on Zen and Tao" por R. Balsekar

Tenho ouvido frequentemente "Sê quem tu és; nada mais é preciso. Tu tens em ti tudo o que precisas para ser feliz". Ao ouvir tais palavras facilmente caímos no erro de nada fazer e pensar "eu sei", "eu faço", etc.

Ao nada fazer deixamos de ser quem somos. Ao pensar "eu…" estamos a enganar-nos a nós próprios.

Aquilo que somos de verdade não é nomeável. Não pode ser apreendido nem percebido; tem de ser experimentado. Esta motivação, esta intenção é una a todas as práticas, o que muda é a forma. O mesmo se passa connosco: a mesma Vida corre em cada um de nós de maneira diferente, resultando em corpos diferentes, em formas diferentes, humanos, animais, plantas... A Vida é uma e uma só.

Precisamos do Conhecimento para depois percebermos que afinal não precisamos dele. Mas o caminho para a iluminação passa por ali. Um mestre Zen disse-me uma vez estas palavras:

Antes de se iniciar esta prática, as pessoas vêm os rios como rios, as montanhas como montanhas e as árvores como árvores. Assim que nos aventuramos nela, os rios deixam de ser rios, as montanhas não são mais montanhas e as árvores deixam de ser árvores. Com o avançar da prática percebemos que afinal os rios nunca deixaram de ser rios, as montanhas nunca deixaram de ser montanhas e as árvores não são mais do que árvores.

Estas linhas soam na minha cabeça desde então e têm-me acompanhado em todas as viagens. Aquilo que se "atinge" com a prática é também mutável e é atingido de várias maneiras por várias vezes. Várias viagens. Não há um fim. Não há um início. É um modo contínuo.